domingo, 26 de agosto de 2012

AS DUAS CULTURAS

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Richard Feynman, físico americano notável, fez parte da equipa que criou a primeira bomba atómica e foi galardoado com o Prémio Nobel da Física em 1965 pelo trabalho sobre a electrodinâmica quântica. A introdução serve para notar que não era uma personalidade qualquer.
Em 1997,Feynman escreveu um livro intitulado “Surely You’re Joking, Mr. Feynman”, em que conta coisas engraçadíssimas da sua vida, bastante pitoresca. A páginas tantas, falando das experiências que fazia no seu quarto de criança, diz ― sem qualquer reserva ― esta coisa que não precisava de dizer: sempre me interessei muito pela ciência e muito pouco, ou nada, pelo que chamam humanidades, ou cultura humanista.
Noutro livro, cujo título não recordo, falando de filósofos, diz mais ou menos: “os filósofos estão sempre por aí, prontos a fazer comentários estúpidos” ― tal e qual! E, em inglês, pronunciava philozawfigal, em vez de philosophical.
É interessante isto porque os grandes avanços da Filosofia moderna devem-se em grande parte à actividade intelectual de físicos quânticos, como Weinberg, Whitehead, Bertrand Russel, blá, blá, blá. Mas Feynman não tinha fé na Filosofia, pronto.
Noutro local, conta a história dum artista que um belo dia lhe disse, pegando numa flor: vocês, físicos, não se apercebem da beleza das coisas, como esta flor. E comenta Feynman, com desprezo: aquele insignificante, que nem pálida ideia tinha de como é constituída uma flor, a importunar-me com insolências.
Esta é uma matéria com discussão de longa data, a da ciência versus humanidades. Já nos referimos aqui várias vezes à questão das “duas culturas” levantada por CP Snow e, embora a agudeza da questão talvez não seja hoje tão grande, ainda existem algumas barreiras.
A culpa, provavelmente, é de ambos os lados. Primeiro, pelo desconhecimento mútuo, como diz Snow. Mas também porque há figuras destas  culturas, especialmente das humanidades, para quem não há pachorra. E aqui volto a chamar a atenção para o texto de João Pinharanda na apresentação das “obras” de Marta Wengorovius, e também para as "obras" elas próprias. Assim, não dá.
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