domingo, 26 de agosto de 2012

TEIMOSIA E PRECONCEITO

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Galeno, mais precisamente Cláudio Galeno, nasceu em 129 AD, em Pérgamo — hoje na Turquia  — filho de pais gregos. Estudou Medicina em Alexandria, voltando depois a Pérgamo onde foi médico da escola de gladiadores. Tal trabalho deu-lhe enorme experiência no tratamento de feridas e fez dele um médico de primeira água na época. Em 160, foi para Roma, onde foi médico do imperador Marco Aurélio e seus sucessores Comodius e Septimius Severus.  Uma figura importante, sem dúvida,  cujo espírito científico dominou a Medicina durante mais de 1.500 anos.
Galeno investigava — não cultivava a formulação teórica de conceitos, como inesperadamente  viria a acontecer durante anos depois na Medicina. Dedicava grande cuidado à dissecção de animais, descobrindo, por exemplo,  que a urina era produzida no rim e não na bexiga como se dizia até aí, e que o sangue circulava nas artérias — e era aqui que queria chegar.
Galeno, no Século II, descobriu que o sangue circulava nas artérias. E sabe o leitor, menos familiarizado com estas coisas, quando se descobriu a circulação sanguínea? Extraordinariamente, só em 1628, William Harvey, médico nascido na Irlanda e formado na Universidade de Cambridge,  publicou um livro intitulado "Exercitatio Anatomica de Motu Cordis et Sanguinis in Animalibus", onde explicava que o sangue era bombeado nas artérias pelo coração e distribuído por todo o organismo, voltando depois ao coração através das veias. Em resumo, entre Galeno e Harvey passaram 15 séculos! E sabe porquê?
Não é possível dizer em meia dúzia de linhas a razão disto — em boa verdade, esta matéria dava para escrever um tratado. Mas, com algum prejuízo do rigor, simplificando até ao osso, direi que foi o preconceito o culpado. Primeiro, dos gregos; depois, da Igreja. Na realidade, só no Século XV, sob a pressão de artistas como Leonardo da Vinci, Rafael e Miguel Ângelo, a Igreja começou a ser mais tolerante em relação a investigações no corpo humano.
Sei que os pastores da Igreja são homens falíveis como todos os outros. Mas para uma coisa assim  não há pachorra, com o devido respeito e sem querer ofender ninguém. É que não dizer isto contribui para perpetuar outros preconceitos; não direi preconceitos com a mesma gravidade, mas também perniciosos quanto baste. Aí está.
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