quinta-feira, 30 de agosto de 2012

NEM TUDO FORAM ROSAS

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Vasco da Gama
(30-08-2012)
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[...] Da curta história anterior da Índia resultavam dois factos: a inimizade pérfida do Rajah de Kalikodu, e a feitoria de Katchi. Castigar terrivelmente o primeiro e consolidar, fortificando-a, a última, foi o principal motivo da segunda armada, que em 1502 (Fevereiro) partiu de Lisboa para o Oriente, sob o comando de Vasco da Gama, o capitão desapiedado, o fidalgo ofendido nos brios pelo miserável Çamorim.
A história da viagem é um horror; e a desforra do capitão uma prova dessa frieza sanguinária, impassível e cruel, que efectivamente existe no temperamento, quase africano, do português. Obliterada na sujeição ou na paz, rebentou sempre com o domínio e com a vitória, na guerra. Se tais sentimentos, vivos na alma do Gama, inspiram  os seus actos, a sua campanha não obedece a um plano, nem no seu rude espírito cabem as largas vistas do estadista. Se algumas levava, reduziam-se a espantar a Índia com a crueldade das suas façanhas, e a dominá-la com o terror dos seus morticínios. Grande sobre as ondas, em luta com os temporais, é a imagem da nação, cuja grandeza está na coragem e na teima com que soube vencer o Mar Tenebroso. Um terramoto agitou o mar da Índia quando o Gama pela segunda vez o trilhava; e o almirante, imagem da bravura épica do povo português, acreditou e disse que até as próprias ondas tremiam com medo nosso—com medo dele!
Navegando porém no mar das Índias, com toda a artilharia carregada de metralha, para arrasar Kalikodu, encontra o Gama uma nau de mercadores árabes que ia para Meka ou voltava, nas romarias constantes à santa Kaaba. Além da tripulação, o navio trazia duzentos e quarenta homens passageiros, com suas mulheres e filhos. Era isto no dia 1 de Outubro de 1502, «de que me lembrarei toda a minha vida!» escreve o piloto ainda horrorizado, ao recordar como a nau foi cobardemente incendiada, com todos os que continha, e que morreram desesperados no fogo ou no mar. Ia a bordo um flamengo, que assim refere a ocorrência: «Tomámos uma nau de Meka, onde iam a bordo 300 passageiros, entre eles mulheres e crianças; e depois do sacarmos mais de 12.000 ducados de dinheiro e pelo menos 10.000 de fazenda, fizemo-la saltar com os passageiros que continha, por meio de pólvora, no 1.º de Outubro.» [...]
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Oliveira Martins in "História de Portugal"
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