sexta-feira, 31 de agosto de 2012

SER OU NÃO SER

.
.
[...]
E sofro sem saber de que Arte
se ocupam as pessoas mortas.
Cecília Meireles
[...]
.
Dizia ontem que somos coisas acidentais e podíamos facilmente não ter existido, facto comprovável por contas feitas nas costas dum envelope.  Mas sendo contingente o nascimento, o mesmo não é a mortenunca falha. Viemos do nada e ao nada voltamos.
Antes de nascer, não sabíamos o que era ser e, consequentemente, não tínhamos opinião. Depois de experimentar, não queremos deixar de ser, embora fosse aí que começámos. Experimentámos e gostámos! Até quem vive mal prefere viver assim a não viver.
Freud dizia que não conseguia conceber a sua morte—mas finou-se como toda a gente.
Goethe filosofava: "É completamente impossível para um ser pensante conceber a própria não existência, o fim da vida e do pensamento". E acrescentava, com esperança talvez, "Desta forma todos têm dentro de si, inconscientemente, a prova da sua imortalidade". Chamam a isto falácia dos filósofos e acho bem chamado.
Lucrécio Caro bazofiava: "Custa o mesmo aceitar a não existência depois da morte como a não existência antes do nascimento"—ganda Lucrécio!
E David Hume tinha cartão do mesmo clube: "A não existência póstuma não assusta mais que a não existência pré-natal". Interrogado um dia se o desaparecimento de tudo o aterrava, respondeu: "Nem um pouco"—ganda David!
Sócrates, antes de beber a cicuta, explicava aos amigos: "A morte é como um sono sem sonho; ou pode ser a migração da alma duns locais para outros—nada a recear".
Cícero considerava tais tiradas filosóficas tentativas de aprender a morrer—está na cara que são.  E há ainda os que dizem: "Porque hei-de ter medo da morte, se Sócrates e Hume não tinham?"—esta, então, é de rebenta canelas!
Menos filosoficamente, o que mete medo na morte é perder o que a vida dá, o melhor que conhecemos. Tal e qual! Sei que há vidas muito más; mas, surpreendentemente, afiguram-se mais aceitáveis que não as ter! Miguel de Unamuno escreveu assim no "Del Sentimiento Trágico de la Vida":

Confesso—difícil como é confessar tal—que mesmo nos dias da minha fé simples da juventude, nunca tremi com as descrições do fogo do Inferno, por mais assustadoras que  fossem, porque  sempre achei a ideia do nada mais aterradora que o Inferno. Quem sofre e quem vive em sofrimento ainda ama e espera, mesmo quando tem escrito no portal da sua morada "Abandona toda a Esperança!" E é melhor viver em dor que cessar de ser pacificamente. A verdade é que não podia acreditar nesse Inferno atroz, uma eternidade de castigo, nem conseguia imaginar Inferno mais autêntico que o nada e a perspectiva dele.

Acho Unamuno baril. Estou com ele, mas agora vou acabar, com a esperança que alguém tenha chegado até aqui. Se chegou, agradeço o esforço. Outro dia voltarei ao tema, em dose mais moderada.
.

Sem comentários:

Publicar um comentário