domingo, 21 de outubro de 2012

BOA SORTE

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Niels Bohr era dinamarquês, era físico, deu importante contribuição para o conhecimento da estrutura atómica e da mecânica quântica e recebeu por isso o Prémio Nobel da Física em 1922.  Um dia, pregou uma ferradura por cima da porta do gabinete para lhe dar sorte. Um colega, vendo tal coisa, perguntou-lhe admirado se acreditava naquilo. Bohr respondeu que não—não acreditava—mas tinham-lhe dito que dava sorte mesmo aos que não acreditavam.  
A história tem perfil de anedota, mas não é tal porque encerra um conceito filosófico complicado. Ocupa-se da origem da fé que mesmo os teólogos actuais consideram não ser um fenómeno com origem na razão. Os argumentos clássicos para provar a existência de Deus estão em baixo. Pegue-se no raciocínio cosmológico de que o universo não pode existir pela sua própria natureza e carece de outra entidade para o explicar, entidade que existirá, essa sim,  pela sua própria natureza e a que se chama Deus. É fraca a conversa e nem vale a pena explicar porquê.
Podemos dizer que não é possível demonstrar a existência de Deus—é verdade. Mas também não é possível demonstrar que não existe. Consequentemente, não há decisão racional na fé, mas também não a há no ateísmo. Pode mesmo dizer-se que este é também uma fé.  E aqui é que entra a história de Bohr—há mil razões para ter fé, cada pessoa  tem fé por uma razão particular, só dela, e muitos têm fé, just in case, como Bohr tinha na ferradura. É legítimo.
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