sexta-feira, 28 de março de 2014

TRISTEZA NÃO TEM FIM: FELICIDADE SIM

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Em 1970, depois de Jigme Singye Wangchuck ser coroado monarca absoluto do Butão, um dos países mais pobres do mundo, interrogado pelos jornalistas sobre o que pensava fazer para aumentar o produto interno bruto, o rei declarou sem hesitar que estava mais interessado em aumentar a felicidade interna bruta.
A felicidade é matéria complicada que os economistas não entendem porque a estudam a partir dos dados que têm, manifestamente desadequados. São como o bêbado que perde as chaves no trajecto do bar para casa e só as procura debaixo do candeeiro da porta porque é aí que tem luz.
Tostoi dizia que as famílias felizes são todas iguais, provável razão porque aparecem tão pouco nos romances, em contraste com as que sofrem grandes ou pequenos dramas. Felicidade não é matéria que prenda a atenção.
Voltando ao rei do Butão e ao produto interno bruto, é verdade que a prosperidade económica aumenta a sensação de felicidade. Mas a relação tem limites porque não corre com proporcionalidade e em paralelo. Naturalmente, o estado de repleção da barriga é fundamental e sine qua non. Mas barriga muito cheia não é sinónimo de muita felicidade. Por essa via, a felicidade só cresce até um limite: depois estabiliza. Estudos feitos no mundo desenvolvido mostram que a felicidade hoje não é maior que em 1960, não obstante as condições materiais da vida terem melhorado sempre até agora. Os países escandinavos estão aí para o demonstrar.
O estado não pode promover a felicidade—está mais que demonstrado. Há nesta matéria um aspecto subtil: o que o estado pode fazer é diminuir, ou atenuar, as causas da infelicidade; no fundo, a filosofia da social-democracia. O resto fica por conta dos cidadãos e das suas organizações, sejam religiosas, cívicas, desportivas, profissionais, rebabá. O rei do Butão não estava completamente fora da razão—para ser feliz não é necessário ser rico; é preciso é ser do Benfica.
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