domingo, 22 de fevereiro de 2015

O HUMOR JÁ NASCE FEITO

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Não sei se a realidade é mais interessante do que a ficção. Sei que, em Portugal, é mais engraçada. Muito antes do dia 1 de Abril, o Público deu a conhecer a carta do partido Livre/ Tempo de Avançar/Corrente Manifesto/ Renovação Comunista aos gregos. Em teoria, a carta apoia as "posições antiausteridade" do governo de Atenas. Na prática, realiza os sonhos de qualquer guionista de comédia.
O aglomerado de partidos, movimentos e correntes, talvez representativo de 1,3% do (nosso) eleitorado, confessa-se envergonhado e revoltado pelas "notícias de que Portugal tem sido um obstáculo" e jura que "a Grécia nunca mais estará sozinha numa reunião do Eurogrupo". Por enquanto, promete fazer "pressão, dentro e fora de Portugal, para que o governo de Portugal mude de posição - ou para que Portugal mude de governo". A "pressão dentro" é divertida. A "pressão fora" é de ir às lágrimas: o aglomerado pretende, se calhar em prol da soberania nacional, convidar à invasão de forças estrangeiras? A terminar, todo um programa de esperança e galhofa: "Caros concidadãos gregos: aguentem firmes, que vêm reforços a caminho."
Não estou a inventar. Aliás, isto não sairia tão bem se fosse inventado, ou encomendado a uma criança de 8 anos. Às vezes, queixamo-nos de que por cá não se faz humor - para quê, se o humor já nasce feito?

Alberto Gonçalves in "Diário de Notícias"

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