sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

PARA TOMAR CONHECIMENTO E PROCEDER EM CONFORMIDADE

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[...] Por volta de 1860, um escritor francês, Edmond About, publicou um livro de viagens que se chamava "A Grécia Contemporânea", que, a julgar pelo número de citações, se vendeu muito bem em Portugal. O próprio rei, D. Pedro V, o leu; e não só o leu mas também aplicadamente o anotou à margem. [...]

[...] D. Pedro V, uma criatura melancólica, a cada aberração que About contava da Grécia, indicava estudiosamente ao lado a aberração correlativa em Portugal. [...]

[...] Como o rei, Eça e Ramalho e o grosso da “inteligência” da época achavam que o livro de About era uma “descrição exacta” de Portugal, embora nós não tivéssemos tantos salteadores, porque nas nossas montanhas não havia infelizmente nada para roubar.
E, no entanto, a dívida pública da Grécia não passava, por essa altura, de uma pequena fracção da dívida pública de Portugal, que excedia (em 54.000 contos) a dívida conjunta da Grécia, da Bélgica, da Suíça, da Dinamarca e da Noruega. Portugal, que estava em paz desde 1850 e, além disso, numa longa fase de estabilidade doméstica, devia à banca francesa e à banca inglesa (em 1882) 420.000 contos, para um orçamento de Estado de 26.000 contos (segundo Rui Ramos, em 1890, quando tudo rebentou devia 600.000). Hoje a Grécia anda pior do que nós. Mas no fundo não somos muito diferentes. Metemos na cabeça, tanto uns como outros, que o mundo era responsável pelo nosso conforto e prosperidade: uma triste ilusão que nos levou ciclicamente à pior das misérias. Uma ilusão que não se muda com demagogia ou com chantagem, por muito que seja o nosso descaramento e fervor.
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Vasco Pulido Valente in "Público" (20-02-2015)
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