terça-feira, 25 de abril de 2017

INQUIETAÇÂO DE UM EXIBICIONISTA HIPERACTIVO

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(Se o rato estiver parado, dê-lhe um toque com o seu rato e ponha-o a andar para acompanhar Marcelo "Esteves")
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 "O Dolicocéfalo" não quer ser eco do que outros dizem ou escrevem. Tem pontos de vista próprios e dá-se muito bem com isso. Mas há pontos de vista alheios tão próximos dos seus que — sem falsa modéstia — parecem seus, embora beneficiando de muito melhor acuidade de quem os manifesta. Leia-se, por exemplo, o que escreve Alberto Gonçalves — um perigosíssimo fassista — sobre Marcelo "Esteves", no "Observador". Diz assim — e transcrevo na íntegra porque tem de ser:

Uma avioneta caiu em Cascais e o lugar do acidente foi invadido pelas entidades necessárias: ambulâncias, mirones, estagiários televisivos e o prof. Marcelo. Num instante, a chegada do prof. Marcelo tornou-se o centro da notícia, e o rosto dele omnipresente nas intermináveis reportagens que encheram o dia e animaram a melancolia das redacções. De cada vez que alguém falava para uma câmara, o prof. Marcelo plantava-se atrás, a abençoar o que era dito. Ao que tudo indica, o prof. Marcelo não coordenou a logística, não prestou primeiros-socorros aos feridos, não ressuscitou os mortos e, ao contrário do que se esperaria, nem sequer emitiu qualquer palpite.
Então, o que fez ali? Na TVI, salvo o erro, um sujeito tentou uma explicação: o prof. Marcelo evitou o pânico. Sem ele, a acreditar nesta apologia, multidões teriam corrido pela A5 afora, numa debandada em que valeria tudo incluindo arrancar olhos. Com ele, imperou a calma. Para os que acham que “calma” está longe de ser a palavra mais adequada a um desastre aéreo, não achem. No dia seguinte, e só no dia seguinte, o prof. Marcelo apresentou a própria versão dos acontecimentos: “Estava próximo e as notícias que tinha eram, felizmente, porque depois não se confirmou, muito piores”.
Apetrechado do extravagante optimismo com que troca os sintomas de ruína económica por boas novas, o prof. Marcelo limitou-se a acomodar às circunstâncias a sua visão alternativa (digamos) da realidade. De facto, a avioneta podia ser um 747, o parque de estacionamento do Lidl podia ser a audiência do Rock in Rio e – se por redobrado azar o prof. Marcelo não estivesse próximo – Portugal podia agora chorar milhares de vítimas fatais. Assim, chora apenas cinco, o que, de acordo com o prof. Marcelo, é quase motivo de festança.
Enquanto o champanhe não refresca, vale a pena uma perguntinha: o que é isto? Ao que consta, é um Presidente da República. Os cépticos, aliás uma minoria desprezível, dividem-se em inúmeras teorias para decifrar o comportamento do prof. Marcelo desde que entrou em Belém, no caso da avioneta e no resto. O que é que, afinal, fundamenta o alegre frenesim do homem?
Uns defendem que o prof. Marcelo se encontra francamente ao serviço dos poderes vigentes. Outros julgam que o prof. Marcelo procura armazenar legitimidade e “peso” para o dia em que o arranjinho governamental nos devolver à bancarrota. Outros ainda juram que o prof. Marcelo possui um medo fóbico da impopularidade. Outros, por fim, garantem que a euforia inconsequente é o estado natural do prof. Marcelo. Todos terão um pedacinho de razão.
A mim interessa menos a psicologia do prof. Marcelo do que a essência dos respectivos súbditos. É inegável que, voluntariamente ou não, o prof. Marcelo recuperou a tradicional figura do pai colectivo e, ao invés de Soares ou Cavaco, adaptou-a à sensibilidade da época. Os portugueses de sempre precisam de quem pareça protegê-los. Os delicados portugueses de hoje precisam de quem o faça com meiguice ou, para usar o ridículo termo em voga, “afectos”. A mistura de ambos os atributos descreve o sucesso imediato do prof. Marcelo, e descreve-nos melhor a nós, o “povo menino” a que se referia um falecido poeta – um poeta que acrescentava: o que não dá é para ser país.
No fundo, não é ao prof. Marcelo que compete poupar nas fantasias e esclarecer os cidadãos acerca da fraude em que os afundam. São os cidadãos que, se querem merecer o nome, a deviam identificar. Os pasmados são livres de elogiar fervorosamente a zelosa actuação do prof. Marcelo. Mas convinha notar que cada elogio é um atestado de menoridade a Portugal.
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