domingo, 12 de abril de 2015

UM TIRO DE PÓLVORA SECA

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Há frases consagradas que figuram em local bem visível da sede de órgãos de soberania de vários países. Em Portugal, por exemplo, lê-se na Assembleia da República o anexim Dura Lex Sed Lex, embora seja só para inglês ver, como todos verificamos pela autópsia; na fachada do  Supremo Tribunal de Justiça dos Estados Unidos, escreveram Equal Justice Under Law; rebabá, rebabá. Em todos os parlamentos, sedes de governo, e tribunais do mundo, devia estar plasmada à entrada outra ideia, nas línguas indígenas para mais fácil compreensão dos artolas que nos regem, contida no provérbio brasileiro Na Prática A Teoria É Outra.
Lembrei-me disto quando li no "Expresso" um apanhado do sumo produzido pela visita do inefável Tsipras a Moscovo. Tsipras falou de Primavera nas relações com a Rússia, mas não houve Primavera nenhuma: só um flop monumental. O melhor conseguido—e já foi muito—resumiu-se ao facto de Putin não ter pedido um empréstimo à Grécia.
O grego—mariquinhas!—ainda disse que o seu Governo discorda abertamente das sanções impostas à Rússia em resultado do seu envolvimento no conflito ucraniano, mas tal não comoveu Moscovo que pôs de parte o levantamento do embargo aos produtos agrícolas gregos: “Não podemos abrir excepções para nenhum país da União Europeia”, resumiu o russo—Tsipras levou raspas! Em resumo, a arma secreta do Syriza—a ameaça de se virar para a Rússia, em detrimento da UE—saiu um tiro de pólvora seca.
Em minha opinião, os dirigentes do Syriza nunca pensaram em ganhar as eleições, nem queriam. Os gregos fizeram-lhes a partida maldosa de os elegerem, deixando-os com a criança no regaço. O ideal era obterem uma representação importante no Parlamento, apenas para chatearem "de bancada" os partidos à direita. O PC português, muito menos ingénuo, não cai em tal ratoeira: faz saber que não participa em governos de coligação. Na realidade, só quer engrossar a representação parlamentar para verrinar eficientemente os governos, sejam eles quais forem.
Se Tsipras não fosse um pixote, tinha formado um governo minoritário, o que deixava a porta aberta para facilmente dar de frosques quando o dinheiro acabar de vez. Agora tem de se aguentar à bronca e anda sem gravata—qualquer dia descalço—de mão estendida, a ver se alguém se mostra solidário com a pureza das suas intenções. A porra é que na prática a teoria é outra.
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