terça-feira, 18 de novembro de 2014

PAVLOV INDUSTRIAL DE SUCO GÁSTRICO

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Pavlov a operar um cão em 1902
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Como é do conhecimento geral, Pavlov é—ou foi—o cientista russo dos chamados reflexos condicionados em cães. Digo chamados porque não era essa a designação que Pavlov usava—foi mal traduzida do russo, mas isso não interessa muito, e menos ainda aqui e agora.
Segundo a tradição, no conhecimento público a experiência consistia em tocar uma campainha quando dava comida aos cães, o que lhes aumentava a secreção salivar. Ao fim de algum tempo da prática repetida, bastava tocar a campainha para a secreção aumentar, mesmo sem dar qualquer comida. O mesmo acontecia com a secreção gástrica e do pâncreas.
Em boa verdade, Pavlov não usava campainha nenhuma. Habitualmente utilizava um metrónomo, aparelho que emite sons secos a intervalos iguais, intervalos susceptíveis de serem aumentados ou diminuídos. Isto porque a investigação era mais refinada que a descrita.
Inicialmente, os cães salivavam com qualquer ritmo do metrónomo. Mas se posteriormente só recebessem comida com um determinado ritmo, deixavam de salivar com ritmos diferentes—ou seja, só respondiam ao som quando este tinha intervalos de uma, e só uma, duração.
Durante mais de trinta anos o laboratório de Pavlov transformou-se numa "fábrica" de papers científicosque lhe valeram o Prémio Nobel da Medicina em 1904e, literalmente, numa fábrica de secreção gástrica. É verdade!
Num bom dia, um bom cão podia produzir 100 centímetros cúbicos de suco gástrico. O suco gástrico havia-se transformado em tratamento popular para o que na época se chamava dispepsia. Em 1904, Pavlov vendia mais de três mil "canecas" (flagons, sic) por ano. A receita apurada financiava a investigação do laboratório.
Com a chegada do comunismo, Pavlov passou maus bocados. O dinheiro do Nobel foi expropriado e, entre 1917 e 1920, a sua principal actividade consistiu em lutar para não morrer de fome e frio, ele e a família. Depois as coisas melhoraram um pouco e viria a morrer em 1936, com 83 anos. As extrapolações possíveis das suas experiências laboratoriais para a Psicologia permitem dizer que Pavlov terá sido o primeiro neurocientista do nosso mundo.
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