quinta-feira, 24 de abril de 2014

ἩΡΆΚΛΕΙΤΟΣ ὁ ἘΦΈΣΙΟΣ

.

James O´Donnell, da Universidade de Georgetown, escreveu um dia esta coisa que devia estar gravada em mármore na entrada das instalações da Organização das Nações Unidas, em Nova Iorque:

«Nada é mais maravilhoso no ser humano que a capacidade de abstrair e calcular; e de produzir leis, algoritmos e tabelas que lhe  permitem criar maravilhas. Somos a única espécie que consegue competir com a Mãe Natureza na batalha pelo controlo do mundo. Podemos perder, é certo, mas é uma esperança, apesar de tudo. 
Mas nada é menos maravilhoso no ser humano que a incapacidade de aprender com as suas descobertas.»

De génio! Nunca sabemos onde está a chave de parafusos quando precisamos dela porque não pensámos que ia ser necessária um dia, e procuramos tirar as porcas com os dentes quando temos uma chave na gaveta ao lado. Tal e qual!
Já antes de Sócrates (o autêntico!), Heráclito de Efeso achava que não se podia tomar banho duas vezes no mesmo rio (outro conceito de se lhe tirar o chapéu, embora vítima da erosão do tempo e da falta de reflexão daí decorrente, diga-se em aparte). Heráclito tinha percebido que o mundo se modifica a cada segundo e, por isso, o  homem está constantemente a viver em meio diferente, a encontrar problemas novos e, por isso, a duvidar das soluções antigas. Muda tudo: as galáxias afastam-se a velocidade quase fisicamente impossível; a Terra deixou de ser o centro do mundo e as estrelas já não giram à sua volta em ciclos anuais; os átomos—por definição indivisíveis—passaram a ser constituídos por partículas mais pequenas, e estas por outras ainda mais pequenas e por aí fora; e tudo que sabemos agora é provisório, como o conhecimento de que para desapertar porcas se usa uma chave das ditas.
Até prova em contrário, o conhecimento actual é para aplicar. A água do rio muda constantemente e, quando se revelar imprópria para tomar banho, deixamos de lá ir, ou usamos um escafandro. Mas antes  disso acontecer, vamos dar uns mergulhos com o equipamento habitual e as normas de segurança em vigor que servem muito bem. Não se subestimem conhecimentos enquanto não surge a necessidade de conhecimentos novos. Depois logo se vê. Os políticos acham que soluções antigas já não servem, por exemplo, e partem para encontros internacionais sem plano nenhum: nem velho, nem novo. O resultado está à vista. Rebabá.
.

Sem comentários:

Publicar um comentário