domingo, 27 de abril de 2014

MENTE MENTIROSA

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De acordo com o psicólogo Robert Feldman, que há quatro décadas estuda o fenómeno da mentira, as pessoas mentem, em média, durante três minutos, numa conversa banal de dez; seja com conhecidos, seja com estranhos. Ninguém se abstém de mentir e algumas pessoas dizem que mentiram doze vezes numa conversa como a referida.
Por exemplo, abre-se a conversa com declarações sobre o prazer de encontrar um chato; diz-se que se nasceu e cresceu em Lisboa, quando foi em Alfornelos; que a pessoa encontrada está com magnífico aspecto, embora tenha ar decadente, quase morto pela austeridade; que a sua gravata é fascinante, embora sirva para espantar formigas dos açucareiros; que a camisa é o último grito da moda embora tenha os punhos esfarpados; que o restaurante onde o outro acaba de almoçar é um grande local, quando só tem comida marada e por aí fora. Algumas mentiras são inofensivas, outras graves: parece-me que estás mais magro, ou "Essa mulher? nem a conheço!...", rebabá.
Uma coisa é mentir, outra é apanhar o mentiroso—nem todos são como Passos Coelho ou Sócrates (o tosco, naturalmente), a quem o nariz cresce todos os dias. Já aqui falámos de detectores de mentiras e da sua falibilidade por darem resultados positivos e negativos falsos e de que há técnicas menos mecanizadas, mas mais difíceis, de apanhar os pinóquios. O psicólogo Paul Ekman, da Universidade da Califórnia, estuda o problema há meio século. Já avaliou a capacidade de identificar mentiras de 15 mil voluntários a quem mostra vídeos de pessoas a mentir e a dizer a verdade. Os resultados não são animadores, mesmo em casos graves, como crimes de ofensas corporais, ou promessas políticas. O sucesso a identificar a honestidade não vai além de 55%. Em Portugal e com políticos, o erro seria de 0%.
Há, de facto, técnicas de observação com melhores resultados mas que exigem muito treino e a maioria não tem tempo, nem está motivada, para as aprender. Portanto, já sabe: quando lhe disserem que está com óptimo aspecto, é porque o acham caquéctico, ou até o julgavam já morto, se está em idade própria para bater as botas.
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