sexta-feira, 25 de abril de 2014

ENSAIO SOBRE A VELHACARIA

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Um dos argumentos agora usados para condenar a anexação da Crimeia pela Rússia é o de que se estão a mudar fronteiras de Estados estabelecidas na sequência da Segunda Guerra Mundial. Em boa verdade, a guerra acabou em 1945 e a Crimeia só pertence à Ucrânia desde 1954. Antes era terra da Rússia, desde 1783, quando o Império dos Czares a anexou, após  dez anos de luta com otomanos.
Em Janeiro de1954, era Nikita Khrushchev Secretário-Geral do Partido Comunista da União Soviética, o Presidium do Soviete Supremo autorizou a transferência da soberania da Crimeia para a República Socialista  Soviética da Ucrânia, a partir de Fevereiro daquele ano. As razões da transferência da soberania então invocadas pelas autoridades russas eram, no mínimo, frouxas.  Falava-se em "acto nobre da Rússia na comemoração dos 300 anos da reunificação da Rússia com a Ucrânia", da "proximidade territorial entre a Ucrânia  e a Crimeia", das "relações económicas e culturais  entre elas", rebabá—uma longa conversa de encher chouriços.
Khrushchev, Sectretário-Geral desde há 3 ou 4 meses, havia sido presidente do Partido Comunista da Ucrânia de 1930 a 1949. Tinha enfrentado forte resistência popular à aceitação da soberania da URSS, envolvendo muita violência. Em meados dos anos 1950, ainda ocorriam encontros armados de monta. Khrushchev precisava de acalmar o povão e nada melhor que fazer-lhe uma oferta chamada Crimeia. Da ideia à acção, foi um relâmpago. Nada como regimes ditatoriais para resolver depressa e expeditamente os problemas. E assim se fez a  vontade de Nikita. A decisão teve dupla vantagem: por um lado era um gesto de "amizade" da URSS para acalmar os ânimos; por outro, permitia infiltrar a Ucrânia com milhões de russos, aumentando a influência destes no País. A mesma técnica já tinha sido usada nos Países Bálticos, especialmente na Letónia e na Estónia.
Os russos alegam agora que a "dádiva" da Crimeia  à Ucrânia foi ilegal. É difícil saber o que—num Estado como a URSS—era legal e ilegal (eu suspeito que era tudo ilegal, mas quem sou eu para dizer tal coisa?). A verdade é que a iniciativa correu os trâmites previstos na "lei" soviética e o actual argumento não colhe.
Mas Putin é um sacana, está mais que visto—aqui fica o registo. Como de vez em quando usa metáforas genéticas para dar uma de cultura, digo dele que é geneticamente um velhaco. Só pode: foi coronel do KGB—Ponto. 
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