segunda-feira, 28 de abril de 2014

'SPRITZ'

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Sabe o que é o Spritz? Provavelmente, sabe porque é uma pessoa informada. Eu não sabia, porque não sou uma pessoa informada; mas fiquei hoje a saber. O Spritz, que está aí na imagem de cima, é um aparelho para ler textos cujas palavras de cada frase aparecem uma a uma, isoladas no ecrã, com ritmo pré-determinado. Por exemplo:     "Coelho"                   "é"                   "um"                   "artolas"
Qual a vantagem?—perguntar-se-á. A vantagem é que, teoricamente, ao ler, pode ter-se o olhar fixo sempre no mesmo ponto, não é necessário mexer os olhos ou a cabeça e o leitor cansa-se e distrai-se menos, lendo mais rapidamente.
Bem pensado, não? Há opiniões. Ou melhor: depende. Explico porquê.
Imagine que está a ler um livro e, a páginas tantas, vem esta frase: "O homem bebia, enquanto a água límpida e fria transbordava do lavatório". Se ler isto como está, já dá lugar a mal-entendidos. Seguramente, volta atrás para reler. Se lê no Spritz fica com os olhos em bico. O homem pode estar a beber uma cerveja, enquanto a água corre do lavatório; ou pode estar a beber essa água. É claro que este é um exemplo extremo e a frase está fora de qualquer contexto. Mas coisas aproximadas acontecem em todos os textos e é necessário retroceder. Agora imagine que não pode voltar atrás. Lê mais depressa, mas percebe pior. Ou volta atrás e a rapidez vai-se. Isto é, se o texto é límpido e cristalino, no estilo do Dr. Soares, chega-se mais depressa ao fim e é um alívio. Mas se é o professor Adriano Moreira a escrever, perde mais tempo a voltar atrás e a leitura fica ainda mais demorada que no "Diário de Notícias" em papel.
Não tenho opinião, mas gostava de experimentar. Para quem gosta do livro objecto, da obra encadernada, do cheiro a tinta, do toque do papel e rebabá, o Spritz é um crime de lesa majestade. Deus perdoe a quem teve tal ideia sacrílega!
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