terça-feira, 29 de abril de 2014

ENSAIO SOBRE O FLATO

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Saiu recentemente um livro chamado "Fart Free Food for Every Body". Para quem não sabe, fart em inglês é assim como peido—com vossa licença—e a ideia é ensinar a cozinhar coisas que não provocam os ditos, para conforto próprio e da vizinhança. Sei que o tema não é fácil, mas é importante do ponto de vista da evolução darwiniana, dado que o flato parece ser indispensável à boa saúde e, consequentemente à sobrevivência da espécie.
O gás intestinal pode ser um preço módico a pagar pelo benefício que tem. Não vou entrar em muitos detalhes da Fisiologia, nem em linguagem científica, mas acrescento que o gás intestinal é em parte ar engolido quando se come e outra parte resultado da digestão de hidratos de carbono da alimentação por micróbios presentes no intestino, cujos peidos fazemos nossos. Tal e qual!
Esse microbioma, que nos insufla as vísceras, é muito importante. Ao comerem os nossos alimentos e produzirem  gases, os micróbios sintetizam moléculas que melhoram o sistema imunitário, protegem a parede do intestino e previnem infecções. Adicionalmente, parte desse gás alimenta outros micróbios—digo micróbios porque não são só bactérias—também importantes na defesa contra infecções.
Consequentemente, os flatos—vulgo peidos, bufas, puns, ou ventosidades—significam que as bactérias e as archea estão a cuidar de nós. São sinal de saúde! Com essas dietas fart free, há algum risco. Cidadão que se preza—e cidadã também—liberta, pelo menos 18 ventosidades por dia, a ritmo variado.
Algum desse gás—e isso é sabido—contém enxofre, ou compostos de enxofre, responsáveis pelo odor a feijão colonial. São os micróbios que o fazem. Assim, quem se alivia, descomprimindo, não tem culpa. Como dizem os anglo-saxónicos, blame the microbiome.
Portanto, caros leitores, consumam em abundância feijão, couve portuguesa, lentilhas, bróculos e por aí fora. Quanto mais comerem, mais tipos de micróbios aparecem e mais saudáveis se tornam. E, em determinados locais ruidosos, como as discotecas, liberte-se dos efeitos acessórios da terapêutica. Assim como assim, nesses locais o cheiro nem se nota.

I think I already knew this,
Beans, beans the musical fruit,
The more you eat, the more you toot,
The more you fart the better you feel,
So eat your beans at every meal.

Nota—A prosa acabada de verter é um bocado espinhosa, eu sei. Mas é inspirada num artigo publicado ontem pelo gigante da comunicação "National Public Radio". Não inventei nada. (Veja aqui um vídeo da autora do livro)
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