terça-feira, 30 de junho de 2015

MERDE DE CHIEN

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Já lhe aconteceu, muito provavelmente, pôr um pé—talvez os dois—em cima de um cagalhão do cão que o seu vizinho faz o favor de levar à rua para se aliviar e o presentear com esse tipo de piso macio e aveludado. É uma tradição cultural que vem de longe e é bom que não se extinga assim de repente. Aliás, com história, como vou explicar.
No tempo dos transportes de tracção animal, era comum as ruas das grandes cidades estarem decoradas com abundantes figos das cavalgaduras de tiro, coisa banal e até apreciada pelo ar campestre que dava às urbes. Nessa época, cagalhão de cão era minudência. Com a chegada dos carros a motor, autocarros, eléctricos, comboios e por aí além, os figos e a bosta foram-se e ficaram os cagalhões caninos a dominar no campo dos excrementos urbanos. Nada que não fosse útil; mesmo factor económico. Por exemplo, no Século XIX, em Paris, havia profissionais da colheita de merde de chien. Percorriam a cidade enchendo sacos da dita que vendiam a mégissiers para curtir pele de ovelha. Dez quilogramas da dita merde chegavam para tratar 12.000 peles ovinas.
Mas, pelos anos 20 do Século passado, os médicos e uns tantos janotas de olfato mais delicado começaram a implicar com o valor económico da merde de chien e o abastecimento dos curtidores foi-se abaixo. O que era riqueza virou trampa. Mal feito!
Em Lisboa, passou-se o inverso: merda de cão é o que mais há nas ruas, mas faltam os curtidores que a usem. A maior parte dos curtidores actuais preferem  a ganza, o ecstasy, o cavalo ou a castanha. Outros tempos, modas novas. É a vida!
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