terça-feira, 23 de junho de 2015

SOMOS TOSCOS

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Imagine uma superfície ideal de água, completamente plana. Deixa lá cair um berlinde  e começa por observar um rápido movimento descendente da superfície da água onde ele cai, a que se seguem várias ondas circulares e concêntricas afastando-se do ponto onde caiu o berlinde. Até aqui, não aconteceu nada de surpreendente.
Suponha que tinha feito um vídeo do narrado e que o põe a correr de trás para a frente. Vê uma série de ondas circulares e concêntricas a avançar da periferia para o ponto onde caiu o berlinde. Contudo, tal nunca acontece naturalmente.
Sabe que as leis da Física e suas equações valem para os dois fenómenos: o que viu naturalmente e o que viu apenas no vídeo a correr para trás? As leis e equações da Física servem para explicar os dois, mas um deles nunca ocorre!
É estranho, não? Acha a coisa uma laracha de almanaque? Pensa que estou a delirar com um ataque de paludismo? Pois fique sabendo que físicos e filósofos ilustres se preocupam com a coisa e não sabem como a explicar. Chamam-lhe assimetria física ou coisa parecida e há muita gente notável embaraçada, pois a Física acha possível o fenómeno ocorrer para os dois lados, mas na prática só ocorre num.
Provavelmente,  o processo de ondas convergentes exigirá um sistema de tal maneira coordenado de diferentes direcções do espaço que só por milagre se verifica. A ser assim, as leis da Física ainda são toscas porque não deveriam, penso eu, aplicar-se ao fenómeno nos dois sentidos.
Vou contar uma história. De 1999 a 2009, o número de pessoas que morreram afogadas em piscinas dos Estados Unidos variou "em função" do número de filmes em que determinado actor participou (Nicholas Cage). Acha que os papéis desempenhados pelo artista tiveram alguma influência naquelas mortes? Eu acho que não, mas quem sou eu para o dizer? Em todo o caso, o exemplo é uma caricatura do que pode acontecer na Física. Há fenómenos que se ajustam a essas leis, mas não significa isso que elas sejam a verdade, até porque admitem factos que não ocorrem.
O nosso cérebro é tosco, está mais que visto. Mas, pelo menos, temos uma virtude, a maior de todas—já percebemos que somos toscos e não batemos a bola muito alto—com excepção de algumas cavalgaduras de duas patas que por aí circulam. Mas isso fica para outra altura em que me sinta mal disposto.
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