terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

APOTEMNOFILIA

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Há coisas extraordinárias que nos passam ao lado, mesmo aos que, em princípio, deviam conhecê-las. Acontece em todas as áreas científicas. Por exemplo, um síndrome neurológico chamado apotemnofilia. O nome é esquisito mas, mesmo assim, não suficientemente esquisito para a coisa que é.
Consiste a enfermidade em ter o desejo persistente de ver uma parte dum membro amputada. Por exemplo, o doente chega à consulta e diz convictamente ao médico: quero que me corte o braço esquerdo por aqui; e aponta com o dedo a linha acima do cotovelo onde quer que seja feita a amputação. E, se voltar ao fim de anos à consulta, repete o pedido e indica com enorme precisão a mesma linha que tinha indicado anteriormente.
Naturalmente que tais doentes frequentam quase todos consultas de Psiquiatria, rotulados de doentes mentais. O problema é que, como dizia no princípio, a doença passa ao lado, da maior parte dos psiquiatras. O Dr. Ramachandran, do Departamento de Psicologia e Neurociências da Universidade da Califórnia, conta a história dum proeminente reitor duma escola de Engenharia que, depois de reformado, pedia a amputação do braço e acrescentava que não o tinha feito antes porque não queria ser considerado louco na universidade.
A situação tem tido explicações freudianas e coisas assim, mas no Departamento do Dr. Ramachandran verificou-se que tem base fisiopatológica. Os doentes têm uma deficiência que é oposta, ou simétrica do síndrome do membro fantasma. Neste caso, depois duma amputação, o cidadão continua a sentir o membro amputado como se ele ainda lá estivesse. Na apotemnofilia, o cérebro é incapaz de reconhecer a parte do membro que os doentes querem amputar. Através de registos de imagiologia, verificaram os investigadores que, com estímulos acima da linha de amputação que os doentes indicam, há actividade cerebral normal. Abaixo da referida linha, nada se passa na imagiologia. E isso é motivo de enorme perturbação para a pessoa. De tal modo que, em regra, acabam todos amputados. Se têm recursos financeiros, vão a países do terceiro mundo onde, a troco de bom pagamento, lhes fazem a vontade.
Para terminar, segundo o Dr. Ramachandran, a doença tem incidência familiar significativa e não é tão rara como se pensa. Acontece é não ser referida por ser considerada uma doença mental sem interesse.
Ele há coisas!...
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