quinta-feira, 26 de abril de 2012

'PARADIGMAS' VS 'ANOMALIAS'

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Em 1962, Thomas Kuhn definiu o que se chama “paradigma científico” como ‘conceito universalmente reconhecido correcto pela ciência e, por isso, modelo para o trabalho de investigação’. O que cai fora do padrão paradigmático é “anomalia”. Mas já na altura Kuhn admitia que  o paradigma pode ter prazo de validade, ou seja,  é temporário.
Barry Marshall desafiou o “paradigma” médico da época, de que a úlcera péptica, vulgarmente chamada ‘úlcera do estômago’, era provocada pelo stress e pelo ácido, ao considerar uma bactéria do género Helicobacter como responsável pela doença. Marshall teve toda a gente contra ele, mas também tinha razão e a úlcera é hoje tratada com antibióticos.
Fred Griffith, muito antes da descoberta do ADN, veio dizer ao mundo que ratos infectados com uma estirpe inofensiva do pneumococo, sucumbiam se fossem depois injectados com uma estirpe de pneumococo virulento, mas neutralizado previamente pelo calor; isto é, a segunda estirpe, tornada inofensiva, era capaz de passar a capacidade agressiva à primeira, que matava os ratos e a transmitia aos descendentes. Como não se sabia nada de ADN, a observação de Griffith foi considerada uma “anomalia”, dado que a estabilidade das espécies era irrefutável na época.
A teoria de Wegener, da deriva continental, segundo a qual todos os continentes ‘descendem’ de um único supercontinente e navegaram pela Terra para as actuais localizações, foi considerada uma “anomalia”, apesar da linha de costa do Brasil encaixar muito bem na linha de costa de África Ocidental e de se encontrar o mesmo tipo de  fósseis em ambas. Só depois da descoberta das placas tectónicas, a ciência abriu mão do “paradigma” oficial da ‘terra firme’.
Portanto, em ciência, como em quase tudo, o conhecimento é verdade até se provar que está errado, o mesmo que dizer: é provisório. Mas há um limite à abertura a novas teorias, ou “anomalias”. Experiências, como a da ‘memória da água’ do homeopata Prof. Benveniste, ou a telepatia, deixam-nos de pé atrás. Não é fácil ser prior duma freguesia assim, porque o que parece bom senso agora pode vir a revelar-se ignorância daqui a uns anos. Portanto, além de bom senso, como dizem os homens do futebol, é preciso muita humildade. É verdade: muita humildade!
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