sábado, 21 de abril de 2012

PROBLEMAS 'MALVADOS'

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Há problemas neste mundo para que não há pachorra. Os especialistas chamam-lhes justamente problemas “malvados”, expressão já consagrada internacionalmente: wicked problems.
O que são problemas “malvados”? A dificuldade começa aí – ninguém consegue defini-los! Ou seja, nunca se sabe bem onde começam e onde acabam; não há maneira correcta de os enquadrar; não há fórmulas; não há experiência anterior porque nunca houve nada parecido – são únicos; muitas vezes, são sintomas de outros problemas, também eles  “malvados”; dependem de vários responsáveis com perspectivas sobre eles diferentes, que cada um considera a correcta; compreendem situações interligadas, impossíveis de dissociar; o seu estudo, frequentemente, revela novos problemas desconhecidos até aí; ninguém está muito interessado em pegar neles porque o insucesso é quase certo; e são muitas vezes o ponto final de carreiras profissionais porque ninguém tem direito de estar errado, mesmo se o problema é “malvado”.
Exemplos? Há vários, uns mais globais, outros menos. O mais típico dos primeiros, na actualidade, é o do aquecimento global. Puf!... Em primeiro lugar, existe? Ou não existe? Há teorias que são mais fés que teorias. É um problema, ou é o sintoma de muitos outros problemas? Deve-se à produção em excesso de dióxido de carbono pela humanidade? Diz-se que sim e que não. Se sim, porque produz a humanidade tanto CO2? Porque a revolução industrial criou hábitos que exigem muita energia. E que hábitos são esses e porque existem? São assim porque todos têm direito ao conforto, à segurança social, à saúde, ao pópó, e por aí fora. E se o aquecimento está a comprometer o futuro da Terra, o nosso único habitat por enquanto, é legítimo deixar um mundo inabitável aos nossos descendentes para vivermos no maior conforto? Alguma solução surgirá de modo a continuar a viver como agora, ou ainda melhor. Qual solução? Logo se vê. Mas é preciso mudar de vida. E quem muda de vida? Os países ricos que já encheram a atmosfera de poluição para serem ricos, ou os países pobres que precisam de viver como os ricos? Vão a Alemanha e os Estados Unidos diminuir a actividade industrial e viver pior para darem margem de manobra poluente às nações pobres? Blá, blá, blá.
O problema existirá e é “malvado”. Mas tem de se começar por uma ponta qualquer e essa é a dificuldade porque todos exigem que se comece pela ponta certa, embora não se saiba qual é. Vamos lá pela tentativa e erro talvez, mas os puristas académicos acham isso um nojo. Só começando por um palpite, sabendo toda a gente que é palpite e está provavelmente errado. E que será necessária outra tentativa, e outra, e outra, até começar a acertar. E que o problema vai mudando de configuração à medida que se avança e carece duma abordagem pouco sistematizada, susceptível de permitir andar às varadas. Em suma, não é possível perceber o problema para depois o resolver – vai-se percebendo ao mesmo tempo que se procura a solução e ninguém sabe quanto isso demora.
Falámos apenas dum problema “malvado” global e clássico, para tornar as coisas mais claras. Mas problemas desses, em menor escala, há às dúzias, às centenas, aos milhares. Que o digam os autarcas. Nos transportes, no saneamento, no trânsito, na ordem pública, nos pisos das vias, nos toxicodependentes, e por aí fora. Matéria excelente para demolir um responsável, quase sempre de forma irresponsável. Temos de viver com eles pacificamente e deixá-los constituir objecto de escárnio e maldizer. A metodologia da solução nos problemas “malvados” é também ela um problema “malvado”!

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