terça-feira, 24 de junho de 2014

OLIVEIRA MARTINS

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Oliveira Martins é um historiador de deslumbrar. Mais extraordinário que o saber, só seu o estilo. Na página 111 da sétima edição da "História de Portugal", pode ler-se o seguinte trecho, exemplo do que digo.

[...] A politica da independência pusera no seio da família portuguesa um membro, cujas arrogâncias e pretensões ameaçavam desnortear o fiel da justiça social. O clero aspirava a usurpar a autoridade à monarquia. Além da força que as tradições jurídicas lhe davam; além da autoridade espiritual e do espectro das bulas de excomunhão, pavor das almas ingenuamente crentes; além do poderio fundado numa riqueza excessiva e na máquina absorvente da mão-morta, poço onde caíam as heranças e legados dos rudes batalhadores arrependidos; além de todas as causas gerais, o clero invocava em Portugal um argumento particular: o rei era vassalo, o papa suserano. Por tal preço obtivera Afonso Henriques um simulacro de sanção jurídica para a sua rebelião.
A situação do clero católico no seio da primitiva sociedade portuguesa—e das coevas em geral—resulta de um tal concurso de elementos heterogéneos, que nenhuma das faces do sistema dos costumes retrata, melhor do que esta, a confusão caótica desse novo mundo que se formava sobre as ruínas e destroços do antigo. Politicamente, o facto de um poder, superior por ter um fundamento transcendente, estranho ao poder civil, é a primeira causa de conflitos. Perante a Igreja, todos são igualmente súbditos, desde o rei até ao ínfimo dos viliores. A base religiosa desse poder  consolida-se com a força que dá a riqueza. Os barões, crendo de facto na verdade da revelação, e numa outra vida onde hão-de ser julgados, têm uma religião feita de medo; e como no fundo são bárbaros, vivem na terra à lei da força, remindo com esmolas e legados, à hora da morte, os longos rosários de crimes. Julgando-se próximos a aparecer perante o supremo juiz, reconhecendo à hora da morte a inutilidade da força e da perfídia perante quem tudo pode e tudo vê, compram o perdão com o fruto das rapinas e dos crimes; e assim formam o alicerce de um poder real, verdadeiro e mundano. Salvos os mortos, os que ficam têm de entender-se com o clero herdeiro; têm de debater por todos os meios a influência e o poder, para outra vez, à hora da morte, repetirem os actos causadores das lutas que lhes encheram a vida. Por tal forma se encerra um círculo vicioso que a politica não pode romper, porque a religião o não consente. Desde que as raças germânicas, avassalando o império antigo, não tinham podido desenvolver a sua independência religiosa e aceitaram o cristianismo, força era que assim fosse, enquanto os dogmas cristãos governassem as consciências. [...]

Não cabe mais neste espaço, mas a prosa continua com o mesmo brilho. Faz bem lê-lo periodicamente—por isso o recordo; e porque vale a pena pensar no que aqui diz.

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