sexta-feira, 31 de março de 2017

BEM QUISERA ESCREVÊ-LA COM PALAVRAS SABIDAS

Uma das coisas de que gosto  não por  voyeurismo — é ler correspondência, sobretudo de escritores. Não considero "bisbilhotice", especialmente  quando essa correspondência está publicada. Além de podermos desfrutar do estilo, quando é o caso, fica-se com ideia mais aproximada da personalidade do escritor, dado que a simples leitura da obra muitas vezes não dá grande informação sobre isso. Acho que o referido se aplica a todos os artistas, e não só, talvez com excepção dos pintores, muitos dos quais têm obra que mostra claramente que eram "chalados" — v.g. Dali, talvez van Gogh.
Hoje peguei num livro com correspondência de Antero de Quental e li algumas cartas que não conhecia (para ser franco, de Quental até não conhecia nenhuma).
Uma delas, para Alberto Machado, açoriano como Quental, jurista, escritor, político e outras coisas mais, que se deduz lhe pedira uma fotografia ou gravura para incluir num texto. Quental responde assim:

Meu Caro Alberto,

Só hoje recebi a tua boa cartinha, que me parece trazer a data de 3. Aí te envio um exemplar da única boa fotografia que tenho. Foi tirada há já três anos, mas d'então para cá tenho mudado pouquíssimo. A gravura a que te referes, é cópia de um retrato que me tirou o ano passado, quando aí estive, o Columbano Bordalo Pinheiro, e que está muito bom como pintura, mas idealizado, como todas as composições desse pintor neo-velasquiano, no sentido do fantástico e tenebroso. Mas a tal gravura levou então esses toques sombrios até às proporções do funambulesco!
Preferia não andar gravado nos papeis, Mas, uma vez que não posso evitar, e sendo do teu gosto estampar-me no "Occidente", aí vai ao menos uma efígie autêntica.
Adeus, que escrevo à pressa por causa da hora do correio.
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Um abraço do teu
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velho amigo
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Antero de Quental
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Deduzo que havia um retrato do "neo-velasquiano" Columbano, retrato que seria "idealizado no sentido do fantástico e tenebroso", que Quental detestava; e uma gravura, talvez sugerida por Alberto Teles, que tinha levado esses toques sombrios (toques sombrios do retrato do Columbano?) "até às proporções do funambulesco". E,  para substituir um e outra, Quental enviava uma "efígie autêntica" (outra fotografia, talvez à la minute, digo eu).
Serve esta longa conversa para falar de duas coisas. A primeira é a preocupação de Antero de Quental com  a sua imagem no papel a publicar — queria parecer bem, bonito, bem apresentado, talvez mais bem vestido que Sócrates, conhecido também por Zezito.
A segunda, e tenho algum pudor em dizer isto, é a forma pouco clara como descreve o problema — de lana-caprina — da escolha do/da retrato/gravura/efígie. 
Com a admiração que tenho por Quental, esperava melhor, mesmo numa carta para um amigo, escrita à pressa "por causa da hora do correio".
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