quinta-feira, 30 de março de 2017

REVISITAR EÇA

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[...] Então começou a minha vida de milionário. Deixei bem depressa a casa de Madame Marques — que, desde que me sabia rico, me tratava todos os dias a arroz-doce, e ela mesma me servia, com o seu vestido de seda dos domingos. Comprei, habitei o palacete amarelo, ao Loreto: as magnificências da minha instalação são bem conhecidas pelas gravuras indiscretas da "Ilustração Francesa". Tornou-se famoso na Europa o meu leito, de um gosto exuberante e bárbaro, com a barra recoberta de lâminas de ouro lavrado, e cortinados de um raro brocado negro onde ondeiam, bordados a pérolas, versos eróticos de Catulo; uma lâmpada, suspensa no interior, derrama ali a claridade láctea e amorosa de um luar de Verão.
Os meus primeiros meses ricos, não o oculto, passei-os a amar — a amar com o sincero bater de coração de um pajem inexperiente. [...]

Eça de Queiroz in "O Mandarim" 
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Faz bem ao espírito do português, que vive em conjuntura política de teodoros  amanuenses do Ministério do Reino  e de teodoricos raposõesler um minuto de Eça por dia — não resolve, mas alivia.

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