domingo, 19 de março de 2017

THE BOOKISH FOOLS

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Era o dia 1 de Novembro de 2014 e eu estava a ver livros na "Barnes and Noble", na 5ª Avenida, quando a minha atenção caiu numa colecção muito bem encadernada, a chamada Leatherbound Classic series. Um empregado aproximou-se e informou-me que aqueles livros eram óptimos para decorar estantes. Desde então, tenho-me lembrado muitas vezes que, como símbolos de refinamento cultural, os livros realmente contam, mesmo na era do 
digital. Por isso, as entrevistas para a TV são frequentemente feitas em frente de estantes cheias de livros, de preferência tendo o entrevistado um deles na mão.
Começa assim um artigo de  Frank Furedi — professor de Sociologia na Universidade de Kent, Canterbury, autor de 17 livros — no AEON Magazine. E continua como segue, resumidamente.
Desde o aparecimento da escrita cuneiforme na Mesopotâmia, cerca de 3.500 anos AC, e da hieroglífica no Egipto, 3.150 anos AC,  que a leitura de textos escritos goza de grande prestígio cultural. No tempo dos romanos, os livros eram trazidos do Céu para a Terra, onde constituíam  bens de luxo de ricos e poderosos. Já Séneca, que  abominava este fetiche, dizia que muitos, sem qualquer grau de escolaridade, tinham os livros apenas para decorar a sala de jantar. A hostilidade de Séneca vinha, provavelmente, da prática corrente — mania — na época de ler os livros em público.
De acordo com o satírico Martial, nem as instalações sanitárias escapavam à moda: escreveu ele um belo dia, o que não traduzo para não quebrar a rima:

You read to me as I stand, you read to me as I sit,
You read to me as I run, you read to me as I shit.
I flee to the baths; you boom in my ear.
I head for the pool, you won’t let me swim.
I hurry to dinner, you stop me in my tracks.
I arrive at the meal, your words make me ga
g.

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O teólogo humanista Sebastian Brant captou a mensagem de Martial e, no livro "A Nave dos Loucos" (1494), em que retrata 112 tipos de exemplares, na voz do primeiro que entrou a bordo um "Louco por Livros" pôs as seguintes palavras, que também não traduzo pela razão já referida:
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If on this ship I’m number one
For special reasons that was done,
Yes, I’m the first one here you see
Because I like my library.
Of splendid books I own no end,
But few that I can comprehend;
I cherish books of various ages
And keep the flies from off the pages.
Where art and science be professed
I say: At home I’m happiest,
I’m never better satisfied
Than when my books are by my side

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A sátira de Brant tornou-se viral, como agora se diz, virou bestseller e foi traduzida do alemão para  latim, francês e inglês. Mas os "book lovers" não desarmaram e a leitura manteve a imagem de meio de auto-descoberta, de desenvolvimento, de visão espiritual da geringonça universal.
No Século XX, a leitura foi elevada à categoria de forma de arte, com os intelectuais a traçarem uma linha na areia — de um lado, os chamados pretendentes a leitores; do outro, a elite. Até a romancista Virginia Woolf, no ensaio "O Leitor Comum" (1925), descreve o leitor médio como alguém "pior educado" que um crítico, que a natureza não "dotou  generosamente".
Como os leitores públicos de Roma, de que falava Martial, os actuais e ávidos leitores de mensagens nas redes sociais, e não só, também estão em toda a parte (como a "Belarte"  digo eu, não Frank Furedi). E, embora em ambos casos haja o mesmo objectivo, que é o de "construir uma imagem", essa imagem é diferente. O jovem sentado no bar a consultar afanosamente o seu smartphone não está a afirmar status de refinamento intelectual. Está a exibir "conexão" social  de pessoa "em rede" non stop  e, muito mais importante, que é alvo de solicitação permanente
Está muito bem observada esta!  penso eu de que.

Leia aqui o artigo original porque vale a pena o esforço.
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