quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

RAMALHO

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O exército português acaba de ser dotado com um melhoramento que o coloca nas condições de rivalizar vantajosamente com as forças mais inteligentemente armadas e equipadas da Europa....
A cavalaria da guarda municipal de Lisboa trocou os antigos estribos de ferro por estribos de sola, inteiros, cobertos, agasalhados, verdadeiros gabinetes de repouso suspensos de uns loros—coisa tão confortável que as famílias que têm destes estribos dispensam-se de ter fogão, e depois de jantar, no inverno, quando a neve cai, essas famílias vão ler o jornal e tomar o café—para os estribos.
O acto de profunda estratégia e alto valor militar de que procedeu acharem-se os nossos guerreiros dotados com estribos de sola torna-os desde hoje e para todo sempre invencíveis.
Porque até aqui havia uma consideração que empalidecia os espíritos dos mais denodados homens de guerra, dos mais corajosos e valentes soldados: é que, no ardor das pelejas, quando no campo da batalha a artilharia varria os esquadrões e os corcéis ofegantes, relinchando, com o pêlo hirto e os ilhais rasgados pelas esporas, galopavam freneticamente para o fogo dos quadrados e para as barreiras metálicas, cintilantes e ásperas das baionetas, se por fatalidade chovia, aos nossos soldados acontecia então esta catástrofe pavorosa—molhavam os pés!
De modo que, de repente, era mister arvorar nos bastiões a bandeira branca, os esquadrões recuavam a trote largo, os chapéus de chuva abriam-se, os cartuchos das pastilhas Regnauld e dos rebuçados de avenca saiam das ambulâncias, um parlamentário ia para o inimigo, e nós pedíamos tréguas de algumas horas para que a nossa cavalaria—mudasse de peúgas.
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Ramalho Ortigão in "As Farpas" (1873)
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