quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

QUEM NADA NÃO SE AFOGA

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O que é nada? Nada, diz o dicionário, é o que não existe. Paradoxo, porque a expressão "o que" contém o pronome demonstrativo "o", subentendendo qualquer coisa e nada não pode ser uma coisa. Para Parmenides de Eleia, não se pode falar do nada porque não temos capacidade de definir  o que é o que não é. Sabemos apenas que, se comermos o nada, ele nos mata.
O nada está frequentemente longe da verdade, mas não sabemos a que distância. Pode ser branco ou preto, até branco e preto em simultâneo. É simples para o mais pretensioso incompetente e conceptualmente complicado até para Deus. Talvez por isso, o mundo está cheio de gente que conhece, compreende e acredita no nada. Há até pedantes, a que chamaremos nulófilos, para quem o nada é sagrado.
O Rei Lear, e os antigos filósofos, diziam ex nihilo nihil fit, o mesmo que o nada vem do nada. Tal máxima atribui enorme poder ao nada ao fazê-lo causa de si próprio, como Deus—causa sui. Para Leibniz, era mais simples que todas as coisas e por isso perguntou um dia porque havia coisas em vez do nada. John Done, falando do alto do púlpito em 1620, proclamou: Quanto mais simples é a coisa, mais difícil é conhecê-la. Por isso, invisível e ininteligível, é nada.
Segundo o filósofo suíço Karl Barth, o nada surgiu simultaneamente com o alguma coisa, quando Deus criou o mundo. Por isso, para Barth, nada é o que Deus não quer. Alguma coisa e nada serão gémeos ontológicos antagónicos.
O filósofo americano Robert Nozick, tomando a ideia de Heidegger, segundo a qual nada é uma força de aniquilação, criticava: se é, aniquila-se a si própria e origina alguma coisa.
O acima citado Parmenides de Eleia dizia que o nada não pode ser concebido intelectualmente e, consequentemente, expresso em palavras—porque ver nada é não ver, falar de ou pensar em nada é não pensar e andar nada é não andar. A convesa sobre o nada tem o mesmo significado que as bolhas de ar a sair da boca do peixe no aquário.
Bertrand Russel, citado há dias, dizia que Ciência é o que se sabe e Filosofia o que não se sabe. Voilà!

(O texto é inspirado no livro de Jim Holt "Why Does the World Exist?"—muito bom!)
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