quarta-feira, 20 de março de 2013

LIVRE ARBÍTRIO

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No dia 23 de Julho de 2007, em Connecticut, USA, Stevem Hayes e Joshua Komisajevsky entraram na casa de William Petit que estava a dormir num sofá, agrediram-no na cabeça com um taco de baseball, amarraram-no, subiram ao andar de cima, ataram as duas filhas às camas onde dormiam e raptaram a mulher que um deles levou a um banco onde levantou 15.000 dólares. Em  seguida voltaram à casa, um deles violou-a e em seguida estrangulou-a. Verificando que o marido tinha desaparecido, entraram em pânico, regaram a casa com gasolina e atearam o fogo que matou as duas crianças. Hayes, depois de preso, manifestou sinais de arrependimento e fez várias tentativas de suicídio. Komisajevsky tinha longa história de ter sido abusado sexualmente em criança. As coisas foram ainda mais complicadas, mas o relatado chega.
Quem conta o drama é Sam Harris, escritor, filósofo e neurocientista americano, num livro intitulado "Free Will" (Livre Arbítrio), publicado em Março de 2012. Não posso reproduzir todo o livro, nem isso interessa: apenas—por hoje— citar a passagem que segue:
"Quaisquer que fossem os seus motivos, os dois homens  não sabem porque são como são. E nós não sabemos porque não somos como eles. Por mais repugnante que tenha sido o seu comportamento, tenho de admitir que, no lugar de qualquer deles, trocando todos os átomos dos nossos corpos, eu seria ele; e, com os genes dele, a sua experiência da vida e um cérebro idêntico, teria feito a mesma coisa. Não há nenhuma opinião científica respeitável que o possa negar".
A moral da história é que não haverá moral nenhuma; ou seja, não há livre arbítrio no comportamento humano, conceito mais que perturbador e contestável, estou eu a ver daqui. Alegadamente, o que chamamos vontade não é vontade coisa nenhuma. Se eu escrevo isto, é porque os mediadores das células do meu cérebro o determinam—será isso a minha vontade, mas não fui eu que pus lá as células e os mediadores. E se, depois de ler o que escrevi, chego à conclusão que estou a dizer burrices e modifico o texto, faço-o porque as células e os mediadores do meu encéfalo dizem para o fazer, mas não fui eu que pus lá as células e os mediadores. Se qualquer das atitudes é imoral, quem é responsável? Eu? Os mediadores e as células do cérebro que eu não criei nem fabriquei? O Passos Coelho? O Louçã? O Jerónimo? Quem pode julgar uma coisa destas?
Já na semana passada aflorei esta matéria, num post intitulado "Tocam os penalistas a solo?", e volto hoje a ela—e hei-de voltar mais vezes—porque merece ser falada. E, para quem estiver interessado e puder fazê-lo, aconselho a leitura do livro ("Free Will"), da Amazon, que na versão "Kindle", utilizável em qualquer computador ligado à Net, custa apenas $9,99 (€7,71).
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