terça-feira, 21 de maio de 2013

TU ÉS PÓ

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Sou um arranjo precário de moléculas, ligeiramente diferente do chimpanzé que já fui. Inesperada mutação nos genes fez o ser que sou. Já tinha acontecido assim com o chimpanzé meu antepassado, com o seu antepassado e com o antepassado do antepassado. Todos  morreram. Também morrerei. A diferença é que eu sei e eles não.
Morrer é mau. Talvez pior, é saber que se morre. O chimpanzé tem sorte—ignora; tal como o antepassado do antepassado do seu antepassado. A primeira e única criatura na Terra que sabe sou eu; e, claro, os semelhantes a mim. Os que já morreram não sei se sabemnão sei sequer se sabem alguma coisa.
Por isso, quando na caminhada da evolução biológica nasceu a consciência,  nasceu a religião. Porque é boa—ajuda a viver com o conhecimento da morte. É bom ter fé, primeira virtude teologal para os católicos. Primeira, embora consequência da segunda, a esperança. Esta alimenta a fé porque o homem não quer  morrer como morria o chimpanzé, seu antepassado, que era pó e ao pó voltava—pó de estrela acrescente-se—acabando. O homem também é pó de estrela, mas não quer acabar assim—muito justamente.
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