Não me canso nem cansarei de mastigar o escândalo dos que
são atingidos por medidas de duvidosa legalidade e dos que são poupados a tais
medidas, em manifestação de total, revoltante e inadmissível falta de vergonha
e pudor. Por isso, transcrevo a seguir as palavras de Ana Sá Lopes no jornal
"i" de hoje.
[...] A ideia de que existe um “nós” e um “eles” já foi
totalmente apreendida pelo povo e está na origem do quase irremediável divórcio
entre a população normal e as instituições políticas. Existimos “nós”, – os
remediados a quem a crise rapa as poupanças e manda para o desemprego a família
– e “eles”, os que nunca vão à falência, os que nunca irão perder o emprego, os
que continuarão a almoçar no Gambrinus à conta de uma empresa pública falida,
aqueles que o Estado ajudará sempre por razões equívocas. O poder comporta-se –
e isso é particularmente doloroso de ver em momentos como este – como Maria
Antonieta antes da Revolução Francesa: “Se não têm pão, comam brioches.” É esse
estado mental que permite ao governo fazer uma lei para cortar reformas,
excluindo magistrados, militares ou trabalhadores da Caixa Geral de Depósitos.
E, para escândalo geral, nem uma palavra diz sobre um corte proporcional nas
famosas reformas dos políticos.
O comunicado da Secretaria de Estado é lapidar desta
total incapacidade de perceber que o fosso entre cidadãos e poder é dramático:
o senhor secretário de Estado Hélder Rosalino admite que, “caso se justifique”,
o corte nas reformas dos políticos “será tratado em sede própria”. Caso se
justifique, ouviram bem? Comam brioches.
Uma náusea, acrescento eu.
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