sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

MÁ SORTE — A NOSSA E DO PROFESSOR CASTELEIRO


Conheci o Professor Malaca Casteleiro numa circunstância profissional que não me "aqueceu" nem "arrefeceu"; embora a sua simpatia não me deixasse deslumbrado. Tinha por ele a admiração decorrente de, como Presidente da Academia das Ciências de Lisboa (ACL), ter levado a bom porto a conclusão do "Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea" cuja feitura andava aos solavancos desde 1793, ano em que se completou a letra "A"!!!
Em 1988, quando o Professor Casteleiro era Presidente da ACL, com o apoio da Fundação Gulbenkian e do Ministério da Educação, o projecto ganhou novamente vida e, 12 ou 13 anos depois,  a obra era publicada, facto bastante para suscitar a minha admiração por Malaca Casteleiro.
Infelizmente, o Professor esqueceu-se do princípio de Peter, de que todos subimos até atingir o nível da incompetência, e o nível de competência do Professor terminava na coordenação de um dicionário da língua portuguesa. Imprudentemente, um dia lembrou-se de reformar a ortografia da Língua Portuguesa, o que lhe permitiria deixar o nome na História.  Aí começou o seu e nosso calvário.
A ortografia sempre foi, desde as cavernas da pré-história, a representação simbólica de palavras, ou mais complicado ainda de ideias. Expressar, através de gatafunhos, ideias como as de espectador e espetador, ou  de facto e fato, consegue-se empiricamente por tentativas e erros sucessivos, difíceis de consensualizar, e em que não se deve "mexer" depois de ter chegado a uma situação de confortável e pacífica estabilidade, mesmo que isso colida com a razão. Não é porque têm a letra "F" que os ingleses deixaram de escrever "Pharmacy" , "Phase",  ou "Phenobarbital", embora isso deixe o professor Casteleiro inquieto. O escrever "PH" ou  "F", não tem o mínimo interesse, diga-se em abono da verdade. Só que o "PH" tem a vantagem de ser uma convenção alicerçada em séculos de uso e isso vale  milhões de vezes mais que a opinião do Professor Casteleiro. 
Malaca Casteleiro é um caso de tropismo pró-protagonismo via AO90. Em boa verdade, quer é deixar o nome ligado a uma reforma na cultura portuguesa. É provável que o consiga. Infelizmente pela pior das razões.
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