sábado, 25 de fevereiro de 2017

QUANTO MAIS ME BATES MENOS GOSTO DE TI

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Em Agosto de 2011, depois da polícia matar um homem de 29 anos em Tottenham, nos subúrbios de Londres, multidões saíram às ruas da cidade — e de outras povoações inglesas — travando "combates" violentos durante seis dias com as forças da ordem; o pior que se havia visto numa geração.
O Primeiro-Ministro David Cameron, falando à nação, referiu-se ao horror da violência e do vandalismo da multidão, desencadeados "apenas" por uma morte, mesmo injusta que tenha sido. E não deixou de chamar a atenção para a ameaça que constitui a psicologia da multidão amotinada quando esta perde toda a racionalidade.
E era aqui que queria chegar, depois de ler um artigo de Michael Bond, intitulado "A Intimidade das Multidões". Nele, Bond interroga-se se as multidões amotinadas são constituídas por pessoas que perderam de todo a racionalidade e se comportam sem qualquer norma ética, solidária, humana, altruísta e por aí fora — é gente inesperada e subitamente "descerebrada"?
Há quem pense que não.
Quase sempre, em situações como a relatada, existe um sentimento — muitas vezes sub-consciente — que já vem de trás. Aquelas multidões amotinadas são constituídas por pessoas com sentimentos hostis à injustiça do enquadramento social envolvente — que controlam sofrivelmente no dia a dia — e que sentem grande solidariedade pelas pessoas que os protagonizam. A maior parte do seu comportamento "amotinado" será movido mais por essa generosa solidariedade que por violenta e irracional maldade.
Será?
A violência das claques de futebol, por exemplo, decorre sem dúvida de comportamentos indesculpáveis dos seus elementos, na grande maioria dos casos. Mas não há dúvida que está instalada, na "cultura" dos seus membros, um sentimento de  rivalidade/hostilidade/combatividade em relação à polícia. O sentimento de "polícia-inimigo" vem quase sempre de refregas anteriores. As hostilidades não são fruto, muitas vezes, de situações ocorridas no momento, mas antes de ajuste de contas decorrentes de coisas passadas, contadas, comentadas e "mastigadas" em conversas de café. No fundo, na base dos embates com as forças policiais, haverá sobretudo um sentimento solidário com o grupo —  mais que irracionalidade (que também existe).
O psicólogo Clifford Stott, investigador na Universidade de Leeds e grande mentor deste ponto de vista, juntamente com os seus colaboradores, contactou a PSP portuguesa antes do Euro 2004, realizado em Portugal. Apresentou a sua teoria e convenceu os responsáveis a abordar o problema das claques duma forma mais "amigável" e menos musculada; menos "anti-motim". Foi dada formação em policiamento não-confrontacional (non-confrontational policing) e o resultado foi a completa ausência de alteração da ordem pública nos jogos com a Inglaterra.
Naturalmente, não se pode levar longe de mais a "moleza" da polícia. Mas compreende-se que só há vantagem quando ela não personifica o principal "inimigo" da tribo a que pertencemos. Disso não tenho dúvidas.
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