sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

SOMOS COMO O "CRI-CRI" (*)

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(*) Insecto que parasita a cabeça do piolho. 
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Texto daptado do artigo "Our Universe Is Too Vast for Even the Most Imaginative Sci-Fi", da autoria de Michael Strauss, professor de Ciências Astrofísicas na Universidade de Princeton.
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A nossa caixa craniana não possui capacidade para "digerir" o conceito do cosmos onde vivemos. Temos uma visão pífia do mundo. Até o campo de futebol parece enorme a um jogador da I Liga nos últimos minutos do jogo. Como podem mentalidades assim contar a História do imenso palco onde protagonizamos a vida?
Dizemos que o Universo se estende por dezenas de milhares de milhões de anos-luz, sabendo que a luz viaja quase a 300.000 km/segundo mas, em boa verdade, não fazemos ideia do que falamos. O voo directo do Dubai para S. Francisco é de 8.000 milhas, aproximadamente o diâmetro da Terra. O diâmetro do Sol é 100 vezes maior; e a distância deste à Terra é outras 100 vezes maior que a anterior — é a chamada Unidade Astronómica (UA) usada para medir "pequenas distâncias"! A nave Voyager 1, por exemplo, lançada em 1977 e a viajar a 11 milhas por segundo, está — em 2017 — apenas a 137 UA do Sol.
Mas isto é nada se falarmos em distâncias entre estrelas. A mais próxima de nós, a Proxima Centauri, está a 270.000 UA, ou 4,25 anos-luz. É preciso alinhar 30 milhões de "Sois" para cobrir a distância até ela. 
Na Via Láctea, que tem 300 mil milhões de estrelas num espaço com 100.000 anos-luz de diâmetro, a distância média entre elas é de 4 anos-luz: o espaço vazio — desperdiçado — é intolerável!
Uma das mais surpreendentes descobertas das ultimas duas décadas é a de que o Sol está longe de ser o único com planetas em órbita — a maioria das estrelas semelhantes na Via Láctea têm em órbita planetas com condições compatíveis com a vida. (ver aqui o caso  da estrela Trappist-1 de que ontem falei). Contudo, chegar a esses planetas é outra conversa. A nave Voyager 1 chegaria lá dentro de 75.000 anos, se estivesse a navegar nessa direcção, o que não é o caso.
A maior parte das histórias de ficção científica passavam-se quase sempre na Via Láctea. Até recentemente, sabia-se quase nada de outras galáxias. Há um século, as chamadas "espirais nebulosas", que se viam nas fotografias do céu, eram na realidade "universos/ilhas", ou galáxias — estruturas tão largas como a Via Láctea. A galáxia nossa vizinha mais próxima está a 2 milhões de anos-luz de distância (não esquecer que a luz anda 300.000 km por segundo); e a luz das galáxias mais afastadas que nos chega já viajou 13 mil milhões de anos desde o Big-Bang.
Nos anos 20 do Século passado, descobrimos que o Universo está em expansão permanente desde o Big-Bang.  E, há 20 anos, descobrimos que essa expansão tem velocidade com aceleração permanente, impelida pela força que ainda não compreendemos bem chamada "energia negra".
Mas a história é mais complicada! Neste momento, só vemos as galáxias cuja luz teve tempo para chegar até nós, depois do início do Universo. Há luz a caminho que ainda não chegou!
E mais ainda: admite-se que o "nosso" Big-Bang não foi único  que tenha havido mais Big-Bangs  e o mundo seja um multiverso, ou conjunto de universos. É uma trapalhada? Claro que é. E de quem é a culpa? A culpa é do Benfica? O astrónomo norte-americano Neil deGrasse Tyson disse um dia: "O Universo não tem obrigação de fazer sentido para nós". Claro que não! Mas podia ser um poucochinho mais claro! Não é pedir muito.
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