domingo, 23 de setembro de 2012

HORTA SECA

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Fiquei chocado ao saber que Maria Teresa Horta recusou receber das mãos do primeiro-ministro um prémio atribuído pela Fundação Casa de Mateus. Acho extraordinário que uma instituição que julgava amiga da literatura premeie a autora de "Nádegas" ("Porque das nádegas/a curva/sempre oferece/a fenda/o rio/o fundo do buraco"), excepto, claro, com um curso aplicado de estética ou, falhado o curso, um bilhete só de ida para Teerão, carente de activismo feminista.
Fora isto, o resto é o trivial. Uma escritora ávida de publicidade resolve transformar uma mera decisão pessoal num grito vagamente ideológico contra quem, cito, está "empenhado na destruição do país". Como o tipo de país desejado pela dona Maria Teresa se encontra explícito nos rascunhos que dedicou ao PREC, entre os quais um poema (?) a partir de mote de Vasco Gonçalves (Refiro-me/sobretudo às mulheres/que exaustas de silêncio/são tímidas no falar//Mas a força que têm/dentro delas/faz do impossível já/seu caminhar...), o assunto não merece comentários adicionais.
O que talvez mereça alguma coisa é a declaração com que a senhora justificou a recusa da cerimónia alusiva ao prémio (mas não o prémio: o cheque segue no correio): "os portugueses é que mandam no país." Quais portugueses? Os 2 159 742 que, há cerca de um ano, depositaram o partido do dr. Passos Coelho no Governo? Os 300 mil (ou 400 mil, se quiserem) que marcharam contra as alterações na TSU? Provavelmente, dadas as saudades de 1975, as 200 alminhas que se reúnem em "assembleias populares" aqui e ali? Ou uma dúzia de amigos da dona Maria Teresa?
Engraçado. As luminárias de uma certa "cultura", que a dona Maria Teresa representa com propriedade, são sempre avessas ao poder, logo que este seja eleito, e indiferentes ao público, logo que este seja livre. Em compensação, adoram o "povo", logo que este não passe de uma alucinação abstracta, repleta de multidões sedentas de consumir os subprodutos engendrados pelas luminárias. Num lugar menos exótico, o primeiro-ministro é que recusaria a proximidade com gente assim. Pior não há.
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Alberto Gonçalves in "Diário de Notícias"
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