sábado, 22 de setembro de 2012

VIÉS MENTAL E A ECONOMIA

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Os portugueses assistiram nos últimos dias à discussão patética entre economistas sobre as virtudes da diminuição da Taxa Social Única, sendo uns de opinião que não resolve nada e outros de que vai diminuir o desemprego. É claro que ninguém sabe, mas é garantido que o palpite dum lado estará certo, apesar de ser mero palpiterepito, apesar de ser mero palpite. E porque digo isto? Vou contar uma história muito resumida, e incompleta por isso, mas deixo aqui o link para mais detalhes.
Em 2002, Daniel Kahneman recebeu o Prémio Nobel da Economia, facto inesperado porque Kahneman é psicólogo. Mas Kahneman, juntamente com Had Tversky que morreu em 1996, fez investigação sobre o modo como funciona o mecanismo mental de decidir, incluindo na Economia.
Para abreviar, direi que há duas maneiras de decidir: uma quase automática, influenciada por vieses mentais que todos temos, e outra reflectida, em que probabilidades, vantagens, inconvenientes, incertezas, risco de erro e por aí fora são pesados. Kahneman verificou, por exemplo,  que a decisão dos juízes é muito influenciada por vieses resultantes da cor, raça, estrato social, etc. dos réus. Mas nem sempre, porque, às vezes, domina o segundo mecanismo de avaliação cuidada e a justiça funciona melhor. Quando escrevo n' "O Dolicocéfalo" uso o primeiro mecanismo de decisão e quando preencho a declaração do IRS uso o segundo; ou quando arrumo o carro no meio dum campo deserto uso um mecanismo e quando o arrumo no parque do "Corte Inglês" uso o outro, ou nem arrumo lá, o que faço de facto—voilá.
Os economistas cultivam uma ciência que é misto de exacta, porque tem alguma base matemática, mas é muito mais dependente de problemas do foro da Sociologia, da Psicologia, da Meteorologia até, que não são ciências exactas. Daí que o viés mental venha ao de cima em força. Vítor Gaspar tem fé que as alterações da TSU criam emprego, outros economistas têm fé que não, pronto—é fé contra fé, simplesmente.
Milton Friedman tinha fé que fazer obras públicas animava a economia e resolvia crises e acertou; o Zezito não tinha fé nenhuma porque é uma nulidade mas disseram-lhe, fez obras públicas e pôs o País na falência. Tal e qual—em Economia, o que resulta hoje falha amanhã porque as condições nunca se repetem.
Portanto, o Dr. Gaspar, o Dr. Ferreira do Amaral, o Dr. Cantiga Esteves, o Dr. Catroga e por aí fora, melhor seria estarem calados, ou dizerem que têm um palpite, palpite sujeito a falhar. Ficávamos todos mais conscientes da trapalhada que são as ciências económicas e financeiras e haveria menos porrada na praça pública. Tal e qual.
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