Fernando Ulrich não é exactamente o género de pessoa que
atrai simpatias. Deve ser detestado por boa parte da população desta ditosa Pátria
amada por Camões. A mim, que não o conheço pessoalmente, não aquece nem
arrefece—ponto parágrafo.
Hoje, na Assembleia da República, terá estranhado a
preocupação da deputada Ana Drago com aquilo que recebe no BPI. Terá mesmo
perguntado porque não se preocupa da mesma forma a deputada com os 330 mil
euros que o treinador do Benfica aufere por mês.
A questão está bem posta: o ordenado de Ulrich deve ser
um escândalo, suspeito eu, semelhante ao de Jorge de Jesus; mas a deputada, e o
Bloco em bloco, só se preocupam com Ulrich. Porquê? Está bom de ver: porque
Ulrich é banqueiro e, por definição um opressor do proletariado, e Jesus é um proletário oprimido—rico, mas
oprimido por definição, porque é proletário.
Há filosofias políticas e paixões políticas. As
primeiras, respeitáveis, são do foro racional. As segundas, deploráveis, são do
foro da psicopatologia. Um cidadão pode ser do Benfica racionalmente, mas a
maior parte das vezes não é—é irracional a paixão. Contudo, a coisa
é irrelevante e até tem graça. Mas não se pode, ou não se deve ser de esquerda
ou direita pela mesma razão que se é do Benfica; e a maior parte dos militantes
exaltados da política são casos lamentáveis de benfiquismo. Mais nas
extremidades do espectro, como é o caso do BE, mas o fenómeno é transversal. Daí
decorre muita da trampa em que chafurdamos. Esse é o problema.
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