quarta-feira, 27 de novembro de 2013

PPP

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No meio da desgraça nacional, fruto de quase quarenta anos de democracia avançada, ainda há gente com humor que sabe tirar partido das circunstâncias. É o caso do professor Carlos Fiolhais que escreve hoje um artigo no "Público" intitulado "O Estado sem papel". Depois de considerações oportunas sobre a falta de papel propriamente dito, não de papel no sentido monetário, conta que numa repartição de Finanças onde foi tratar de assunto pessoal, depois de lhe pedirem o cartão do cidadão, exigiram uma fotocópia do dito. Informado o funcionário de que a podia fazer, foi por este respondido não ser tal possível porque não tinha papel na repartição. Ofereceu-se então para ir a casa buscar uma folha A4, mas a solução não servia—devia ir ao quiosque da esquina fazer a cópia. E acrescenta o físico: "Queriam de mim um contributo, ainda que modesto, ao comércio local. Estava perante uma parceria público-privada."
Conta ainda que recebeu do fisco um e-mail ameaçador por não ter apresentado a declaração de IRS. E esclarece que não era por terem perdido o papel, uma vez que a havia feito por via electrónica. Concluiu que tinham perdido, isso sim, os bits. Sugeriu então que, através do Ministério dos Negócios Estrangeiros, os pedissem à NSA americana que controla a circulação electrónica mundial.
São pessoas assim que desfazem a credibilidade de algumas instituições e iniciativas para que não há pachorra. Não com manifestações pré-formatadas, nem com discursos bacocos. O sarcasmo é a arma dos inteligentes. As assembleias gerais, ou plenários caleidoscópicos, de aulas magnas são como os boomerangs—voltam-se contra quem os lança; frequentemente carregados de ridículo.
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