sexta-feira, 29 de agosto de 2014

DON'T WORRY BE HAPPY

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Um grão de trigo não faz um monte de trigo. Dois grãos de trigo não fazem um monte de trigo. Três, também não. Muitos grãos de trigo fazem um monte de trigo. A partir de que número fazem os grãos um monte? Não há resposta. A noção de monte de trigo é vaga—sofre de vaguidade.
A nossa linguagem, com séculos de existência e evolução, não conseguiu atingir ainda—aproximar-se sequer—da forma correcta de exprimir conceitos. É vaga, para não dizer tosca. Serve para atamancar. O problema é que grande parte do pensamento é realizado com a linguagem. Falávamos há dias da sua internalização como origem do pensamento, há 70 milhares de anos. Infelizmente continua primária e o pensamento a enfermar de vaguidade.
Daí resultam dificuldades conceptuais sobre matérias filosóficas e existenciais. Por exemplo, a noção de causalidade implica que tudo que existe resulta de alguma coisa. A ser assim, ou há coisas eternas, ou num dado momento alguma coisa resultou do nada—hipóteses à margem da lógica. Mas esta é fruto do pensamento, que trabalha com a linguagem e linguagem é ferramenta limitada. Está mais que visto que um surdo não consegue afinar um piano e, se é surdo desde a nascença, nem sequer percebe o que é um piano.
Na limitação que é a nossa, só admitimos o nada e o alguma coisa—provavelmente, é pouco. Bertrand Russell dizia que uma película fotográfica deteriorada não permite saber quem é o janota que lá está plasmado: pode ser o Zé, o Chico, o Quim ou outro bem conhecido, incluindo o António Costa—mas está lá um cidadão bem definido. Isto é, naquela película estão coisas que não vemos ou, melhor ainda, vemos mas não percebemos. O mesmo acontece com as nossas palavras, imagens, pensamentos e modelos científicos.
Por isso, pode acontecer que, além do eterno e do nada, haja mais coisas na película fotográfica do mundo, coisas que não percebemos, como o surdo com o piano. Mas não há problema: Keep calm and live to the fullest.
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