domingo, 24 de agosto de 2014

POR FAVOR, ANDE

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Friedrich Nietzsche  escreveu que todas as grandes ideias são concebidas a andar. Nietzsche era um génio e os génios também estão autorizados a dizer asneiras. Contudo Nietzsche não estava sozinho—Tchaikovsky, Rousseau, Dickens, Mahler, Thoreau e Kant caminhavam muito, alguns até à obsessão. Thoureau escrevia uma hora por cada hora caminhada. Tchaikovsky andava duas horas todos os dias. Rousseau achava que só tinha ideias dignas do papel se andasse. Dizia mesmo que a visão de uma secretária o deixava  vazio de ideias, mesmo nauseado.
Dickens era o mais obsessivo. Convidava amigos para jantar e antes ia "dar uma volta" com eles, às vezes quase 20 km, voltando mais vigoroso e com os hóspedes à beira do colapso. Ao longo do percurso, deixava a imaginação à solta e—dizia—muitas vezes encontrava personagens de obras anteriores na rua. Os seus passeios eram de dois tipos: com objectivo, ou puramente ao acaso.
A ciência actual reconhece a relação entre andar e criar. Estudos recentes da Universidade de Stanford com voluntários confirmam-no e permitem compreender que o efeito não tem só a ver com a mudança de ambiente, mas resulta sobretudo da marcha.
Dizem os especialistas que a quantidade de informação que chega a cada cabeça diariamente não cessa de aumentar, provavelmente cinco vezes nos últimos três decénios. Não há capacidade de a "trabalhar" mantendo-nos em contacto com as fontes. Daniel J. Levitin, autor do livro The Organized Mind: Thinking Straight in the Age of Information Overload, em recente artigo no "The New York Times" escreve que é preciso sair, ir às compras ou fazer qualquer coisa que não ocupe a atenção, para resolver problemas mentais que nos atrapalham. Caminhar "desata nós" na cabeça e liberta a corrente do pensamento, mesmo em ambientes urbanos onde a informação continua a atingir-nos, em anúncios comerciais, nas montras, nos autocarros e por aí fora.
Não há nada mais gratificante que andar, andar, andar; sobretudo, num local de que se gosta e onde o enquadramento muda dia a dia, hora a hora, minuto a minuto. Esta é uma afirmação de quem sabe do que fala—eu. Se não costuma andar, ande. Sempre que possa, pela sua saúde, ande; e vai ver que vale a pena..
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