segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

O TORQUEMADA SOVIÉTICO

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Falávamos ontem dos problemas havidos com os cosmologistas depois de Pio XII ter usado a teoria do Big-Bang como prova da existência de Deus e da Criação. Enquanto no Ocidente tais problemas tinham origem na religião, no Leste eram os políticos que entravam na polémica. Na União Soviética os ideólogos do regime eram ati-Big-Bang porque este não estava de acordo com a ideologia marxista-leninista. Os comunistas não aceitavam um momento de Criação porque isso era aceitar um Criador; e diziam que a teoria era uma manobra do Ocidente, não obstante um dos pais da doutrina ser o russo Alexander Friedmann, de S. Petersburgo.
O ideólogo Andrei Zhdanov, coordenador das purgas estalinistas dos anos 30 e 40, resumia a matéria em poucas palavras: "Falsários da ciência querem ressuscitar o conto de fadas da origem do mundo a partir do nada". Das palavras, passou aos actos e começou a perseguição aos que chamava "agentes de Lemaître". As suas vítimas incluíram Nikolai Kozyrev, que foi mandado para um "campo de trabalho" em 1937 e condenado depois à morte, sentença que foi comutada para prisão, por as autoridades terem encontrado inesperada dificuldade em organizar um pelotão de fuzilamento.
Vsevolod Frederiks e Matvei Bronstein, também defensores do Big-Bang, tiveram menos sorte. Frederiks esteve preso em vários campos e acabou por morrer ao fim de seis anos de trabalhos forçados. Bronstein foi fuzilado sob a acusação de espionagem.
Com tais riscos, a investigação cosmológica decente parou na defunta União Soviética. O astrónomo V. E. Lov, seguidor do partido e lacaio dos auto-proclamados defensores do proletariado, para usar terminologia cara aos comunistas, dizia que o modelo do Big-Bang era um "tumor canceroso que corroía a ciência astronómica moderna" e o "principal inimigo ideológico do materialismo científico". E Boris Vorontsov-Veliavinov, colega de Lov, chamava a Gamow apóstata americanizado, blá, blá, blá, e outras conversas que já conhecemos, tipo "Pacto de Agressão", "Novas Políticas" e por aí fora. Era a versão Século XX da Inquisição, com Staline no papel de Torquemada.

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