quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

DA INSPIRAÇÃO À INOVAÇÃO

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Falávamos ontem da inovação como força motriz da economia e dos factores seus condicionantes, entre os quais se destaca a ciência. É indiscutível que sim, sobretudo na era recente, mas o facto não é tão líquido como parece na primeira abordagem.
Francis Bacon foi dos primeiros a afirmar que os inventoresou inovadoresaplicavam o trabalho da ciência, mãe da inovação. Muitos pensam o mesmo. A receita consistirá em despejar fundos públicos sobre a investigação científica—porque ninguém mais o faz capazmente  se o contribuinte não participa—e esperar pelo parto de novas ideias na sociedade, verbi gratia na economia. Aliás, a matéria está na ordem do dia no nosso abençoado País.
Na verdade, há muito boa gente a pensar não serem as coisa exactamente assim. Dizem mesmo ser a ciência mais filha da inovação do que mãe. Poucas das invenções que fizeram a revolução industrial estavam relacionadas com teorias científicas da época. Dos quatro homens que mais avanços imprimiram à máquina a vapor—Newcomen, Trevithick,  Stephenson e Watt—três eram completamente ignorantes em matéria científica. E ainda se discute se Watt teria alguma "inspiração" científica.
Muitas vezes, a ciência contribui, isso sim, para o apuramento da invenção e para a sua melhoria e compreensão.  Quando se explicou a física da transmissão eléctrica, o telégrafo pôde ser aperfeiçoado;  ao compreender a sucessão de estratos geológicos, os mineiros do carvão puderam abrir novas e mais rentáveis minas; o conhecimento da estrutura do anel benzénico permitiu aos industriais "desenhar" novas tintas, em vez de as descobrir por acaso, e por aí fora. Também no Século XX há muita tecnologia que deve pouco às universidades e institutos de investigação—por exemplo, o voo em aeronaves mais pesadas que o ar, o telemóvel, o software.
Na área das ciências biológicas,  a Aspirina tratou milhões de dores de cabeça sem se conhecer o mecanismo de acção; a penicilina, descoberta por serendipidade, matou milhões de biliões de bactérias sem se saber como o fazia (antes delas começarem a resistir-lhe);  os sumos da laranja e do limão trataram incontáveis casos de escorbuto antes da descoberta da vitamina C; e rebabá...
Pelo exposto não se deduza que se advoga a secundarização da ciência no progresso humano. Em boa verdade, é essencial. Mas, como já um dia referi neste espaço, os grandes progressos científicos ou tecnológicos correspondem à subida de degraus. No intervalo destes há planos, ou pisos da escada. O génio sobe os degraus. Os pisos são o palco de multidões de investigadores científicos que fazem o trabalho da formiga. Higgs previu e descreveu uma partícula que não se conhecia—o génio subiu o degrau. Milhares de pessoas estimáveis encontraram a partícula responsável pela massa dos corpos no acelerador de partículas do CERN em Genebra—avançaram no piso da escada. Higgs era cientista, mas o génio não tem de o ser necessariamente. Mostra a História que muitas vezes não foi.
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