terça-feira, 23 de abril de 2013

A ARTE DE SER HUMILDE

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Para ser completamente indigesto, começo por recordar que a palavra humildade vem do latim humus que significa qualquer coisa como filhos da terra—na realidade a nossa condição: todas as moléculas organizadas em nós vieram de lá. Mas humildade é, além disso, uma virtude, segundo o consenso geral, embora a prática não seja tão geral assim.
De acordo com o Dicionário de Inglês de Oxford, é a qualidade de ser humilde, ou ter-se a si próprio em fraca conta, para fazer uma tradução livre. Com o devido respeito por tão conceituada obra, parece-me a definição infeliz. Ter fraca opinião de si próprio é mais burrice que virtude. Nesta ordem de ideias, diríamos ser preferível dizer que é ter sobre si a real noção do valor próprio. Mas também esta definição não é muito inspirada. O fulano que diz ser um gestor brilhante—mesmo sendo-o—ou o governante tipo Zezito que diz ser uma besta—que é o caso—não faz o quadro da humildade, embora  o Dicionário da Língua Portuguesa Contemporânea, da Academia das Ciências de Lisboa, diga, na primeira acepção, que é a capacidade de reconhecer erros ou defeitos próprios.
A auto-avaliação é em si, ou pode ser, um acto de ausência de humildade. O fulano que pergunta reiteradamente a si ou aos outros como "está a ir" não configura a humildade, antes a vaidade. Pode não ser o caso, mas assim parece.
Talvez a melhor consubstanciação da humildade  resida na tradição cristã, no relato do Evangelho de S. João do episódio do lava-pés na última ceia. Aí, Cristo terá dito aos discípulos: Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros. Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também.
Ou seja, se me é permitido interpretar o discurso, a auto-avaliação pode ser feita—talvez deva mesmo ser feita—mas sem que daí decorra qualquer julgamento entre o valor do julgado e  os outros. Cristo diz que é Senhor e Mestre, mas igual aos apóstolos a quem pode e deve lavar os pés. Primeiro vem o conceito de igualdade—a real humildade—e, só depois, o do status.
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